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Por: Rômulo R. Reis

O CIRCO DE MINHA INFÂNCIA NÃO EXISTE MAIS

“Os palhaços estão mudos”

Crônicas Amparenses

Crônicas AmparensesColuna semanal com crônicas do advogado e escritor Rômulo Resende Reis. O autor é natural de Santo Antônio do Amparo, advogado e escritor, é professor do curso de Direito do UNILAVRAS, Mestre em Direito e membro da Academia Lavrense de Letras. Trás nas suas crônicas lembranças afetivas e um pouco da história de Santo Antônio do Amparo, assunto que tem pesquisado com afinco nos últimos tempos visando a publicação de um livro sobre o tema.

29/07/2019 14h26
Por: Redação
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Já um pouco rodado no que diz respeito a idade, me lembro com saudades dos antigos circos que chegavam em Santo Antônio do Amparo. Naquele tempo ainda sem internet, computadores e tantas traquitanas que hoje ocupam integralmente o tempo de nossos jovens, a chegada do circo era um evento que marcava toda cidade. Em especial nós crianças de então, que atentas aos carros de propaganda lotávamos os espetáculos, nos encantando com o globo da morte, os trapezistas, os mágicos, os leões e, principalmente, com as brincadeiras dos palhaços.

                Em um primeiro momento lembro-me que os circos em Santo Antônio do Amparo se instalavam no Bairro Lava Pés, próximo a Fazenda do Piquete, onde então residiam meus avós. Posteriormente me lembro dos circos se instalando no Campo do Rapadura e épocas mais recentes onde hoje é o Parque de Exposições.

                Sempre fascinado por feras e pela África, chamava-me especial atenção os Leões. Lembro-me de uma ocasião onde o circo estava instalado no Parque de Exposições e que aqui chegou com uma carreta gaiola lotada de leões. A noite dormia escutando os urros das feras, cheio de medo e principalmente vigiando o cachorro Salsicha. Corria a boca miúda na cidade que o circo trocava ingressos por cachorros e gatos que invariavelmente viravam o jantar dos famigerados felinos.

                Um circo marcante de minha infância, que a pouco tempo pude rever já em Lavras é o do palhaço “Cheirosinho”. Por semanas a fio assistíamos repetidas vezes os espetáculos, chamando mais atenção os “teatros” protagonizados pelo gentil palhaço e que nos faziam rir a ponto de doer a barriga. Naqueles tempos os palhaços falavam, brincavam como a plateia e digamos assim, tiravam o sarro de todos.

                Escrevo esta crônica neste momento com um misto de saudosismo e decepção. Explico. Este ano passei por, digamos assim, duas experiências “circenses”, ambas na capital mineira. A primeira no afamado “Cirque du Soleil”, onde pude assistir um espetáculo pomposamente chamado de “Ovo”. Adquiridos os ingressos pelo olho da cara, para lá me abarquei em companhia da patroa e da mais velha.

                De fato o circo em questão é um espetáculo a parte. Uma bela produção, artistas impecavelmente vestidos e precisos em seus malabarismos e performances, uma produção de encher a vista,  diga-se de passagem, que certamente faz jus a fama que tal trupe granjeou pelo mundo. Mas para mim faltava algo, no caso os palhaços e os leões. Palhaços pode-se dizer que até existiam. Uns atores vestidos de insetos que emitiam uns grunhidos, mas que nada diziam e que, mudos, não tinham nenhuma graça. Leões e feras nem pensar. E pior, ao final do espetáculo o bendito “ovo” sequer eclodiu.

                Talvez decepcionado com tão frustrante experiência, por estes dias repeti a dose, já em companhia também da caçula.  Desta vez o chamado “Circo dos Sonhos”, salvo engano de um ator famoso. Mais uma vez a mesma experiência, em proporção algo menor do que o primeiro, um circo até interessante, bem organizado, artistas impecavelmente vestidos, performances e malabarismos  brilhantes, até com alguns números de mágica.

                Mas novamente a decepção toma conta. De novo o palhaço estava mudo, um único palhaço emitia ruídos pela boca e interagia com a plateia em um número sem graça. Sem uma palavra, sem uma única brincadeira sequer. Leões e feras nem pensar, ao que parece ao menos no circo se extinguiram por completo.

                Talvez seja eu um chato saudosista, até porque estes circos de hoje são espetáculos que atraem um número enorme de pessoas, podendo-se até dizer que salvaram o próprio circo, modernizando o mesmo e o adaptando a nova realidade do mundo. Não há que se negar que são espetáculos maravilhosos, e que os olhos de minhas crianças denunciavam um encantamento que me reconfortou e fez valer a pena ter comparecido.

                Mas onde estão os circos de minha infância? Talvez não existam mais, os tempos mudaram e nesta época em que tudo deve ser politicamente “bonitinho” (uso esta expressão porque não sou ninguém para opinar o que seja o “correto”), os palhaços se calam mais por medo das brincadeiras. ( Não tenho como deixar de imaginar um palhaço sofrendo uma ação penal por uma brincadeira mal colocada.) Ao invés de brincadeiras se protegem com performances mudas e grunhidos. Os animais nem se fala, leis cada vez mais severas os baniram dos circos, talvez até com certa dose de razão.

                No fundo me considero um saudosista. Meu circo ficou no passado, na poeira do Bairro Lava Pés, do Campo do Rapadura ou do Parque de Exposições. Os urros dos leões não existem mais e os palhaços estão mudos. Confesso que os novos espetáculos são realmente muito belos, mas sempre que os assistir vou sair completamente frustrado por não ver mais o “salto da perereca voadora”.

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