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POR: RÔMULO R. REIS

NO TEMPO EM QUE AS COISAS ERAM FEITAS MANUALMENTE

O trabalho do artesão não pode acabar

Crônicas Amparenses

Crônicas AmparensesColuna semanal com crônicas do advogado e escritor Rômulo Resende Reis. O autor é natural de Santo Antônio do Amparo, advogado e escritor, é professor do curso de Direito do UNILAVRAS, Mestre em Direito e membro da Academia Lavrense de Letras. Trás nas suas crônicas lembranças afetivas e um pouco da história de Santo Antônio do Amparo, assunto que tem pesquisado com afinco nos últimos tempos visando a publicação de um livro sobre o tema.

14/08/2019 10h34Atualizado há 2 meses
Por: Redação

NO TEMPO EM QUE AS COISAS ERAM FEITAS MANUALMENTE

 

                        O trabalho do artesão não pode acabar

 

            Pesquisando sobre a história de Santo Antônio do Amparo me deparei com um censo muito interessante, no caso a lista de inscrições eleitorais de fins do século XIX. Para além do fato marcante de que em tais listas só constavam os nomes de homens de posses, o que por si só já demonstra o perfil da sociedade machista e excludente de então (uma constante no Brasil e mesmo no mundo na virada dos séculos XIX para o XX), me atenho a falar aqui, tendo tal lista como pano de fundo, no artesão.

            Diferentemente do mundo de hoje, onde todo e qualquer utensílio é feito com prazo já fixo de duração onde tudo acaba quando menos se espera,  antigamente as coisas eram feitas para durar. A lógica do mercado de hoje impõe uma obsolência programada a tudo, relógios, roupas, utensílios, computadores e celulares principalmente, tem prazo certo de duração. Tudo acaba para alimentar a máquina do deus mercado que vive a custa do consumo desenfreado.

            Rebelde que sou quanto a esta lógica absurda, sou um fã incondicional do trabalho dos artesãos. Aqueles raros profissionais que a duras penas ainda conservam a arte de com as próprias mãos dar vida a um número infindável de utensílios tais como roupas, sapatos, móveis, ferragens, facas e tudo o mais que se possa pensar. Também, bisneto de alfaiate, neto de costureira, desde pequeno admiro o trabalho maravilhoso do artesão, o qual ante a matéria prima bruta, extrai a forma desejada do objeto mediante o trabalho de suas mãos.

            Voltando a lista eleitoral citada, em fins do século XIX em Santo Antônio do Amparo tínhamos aqui seis alfaiates, dez carpinteiros, dois seleiros, seis sapateiros, três funileiros e dois ferreiros, verdadeiros artífices que proviam a população amparense dos tão necessários utensílios imprescindíveis a vida de qualquer pessoa, passando dos vestuários aos móveis e utensílios de cozinha. Naquele tempo não podíamos satisfazer nossas necessidades imediatas mediante a compra de um utensílio em uma loja de departamentos qualquer. Somente com o trabalho do artesão é que se poderia obter o tão necessário utensílio.

            Estes profissionais do passado me vêm a mente no momento em que por estes dias,  diante de um antigo facão todo enferrujado de meu finado avô Lydio, procuro na cidade de Itapecerica o trabalho do grande artesão cuteleiro Wdson Mendes. Depois de uma primorosa restauração o centenário facão ganhou vida nova, sendo mais um adorno em minha coleção de cutelaria. Sou fascinado por trabalhos manuais de cutelaria, o que tem me proporcionado o contato com grandes artesãos e me feito andar um bocado a caça de peças únicas.

            Embora não tenha ainda trabalhos de artesãos cuteleiros amparenses, sei que já existe amparense se dedicando a esta arte e com profundo talento. Mas no caso específico de nossos artesãos amparenses ainda na ativa, o trabalho no antigo facão de meu avô ficou realmente completo com a intervenção de um mestre na arte de trabalhar o couro. No caso o amigo Marquinhos, filho do Sr. Juquinha que também era um artesão de renome.  Adoro levar minhas peças de cutelaria em sua “sapataria”, sempre rende um bom papo, onde ele pacientemente me explica os detalhes do trabalho em couro e, com no máximo uma semana, me entrega bainhas maravilhosas, todas feitas e trabalhadas a mão. Um verdadeiro artista, ciente de seu talento, o qual infelizmente não tem ainda um sucessor ou aprendiz para transmitir sua arte, a qual herdou de seu pai, fato este que me preocupa.

            Nesta modernidade onde tudo é feito para acabar no prazo mais breve possível, neste mundo líquido de Bauman,  onde nada permanece, nem as coisas, nem as relações, nem mesmo os fatos não são mais duradouros com o advento da pós-verdade, é imprescindível resgatar e valorizar o trabalho artesanal. É imprescindível valorizarmos a habilidade do ser humano em dar forma a matéria bruta e produzir coisas que durarão por gerações, registrando assim uma época para posteridade. O ofício do artesão não pode acabar.

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