amparense
Tapwear
TERRAKASA IMOBILIÁRIA
Crônicas Amparenses

A FARMÁCIA DO TIO BINHA

Um amparense inesquecível

Crônicas Amparenses

Crônicas AmparensesColuna semanal com crônicas do advogado e escritor Rômulo Resende Reis. O autor é natural de Santo Antônio do Amparo, advogado e escritor, é professor do curso de Direito do UNILAVRAS, Mestre em Direito e membro da Academia Lavrense de Letras. Trás nas suas crônicas lembranças afetivas e um pouco da história de Santo Antônio do Amparo, assunto que tem pesquisado com afinco nos últimos tempos visando a publicação de um livro sobre o tema.

06/09/2019 14h54Atualizado há 1 semana
Por: Matheus

Certamente o nome Antônio Robson Fonseca pode parecer algo estranho para muitos, que mais desavisados vão dizer que não o conheceram. Mas quando falamos em “Binha da Farmácia” e para mim e muitos “Tio Binha” de imediato tal nome provocará um grande sorriso e certamente uma boa lembrança a todos que tiveram, como eu, o imenso privilégio de conviver e gozar da amizade deste grande amparense.

                Tio Binha foi uma daquelas personalidades fantásticas de se conhecer e conviver. Filho de uma família numerosa e muito querida dos amparenses, Sr. Antônio Macêdo e Dona Iracema, muito jovem se lançou ao trabalho. Na antiga Farmácia Mourão, muito cedo encontrou sua vocação, onde apreendeu o ofício que lhe acompanharia por toda vida.

                O epíteto de “Binha”, segundo o mesmo me contou, veio do fato de que naquela farmácia ele trabalhava com meu saudoso padrinho, Antônio Martins, o “Bomba”, daí toda a cidade o passou a conhecer como o “Bombinha” depois simplificado para “Binha”, pelo qual ficou conhecido de toda população amparense.

                Sem acesso ao ensino superior foi um autodidata. De uma Inteligência privilegiada devorava os compêndios de farmácia e solidificava seus conhecimentos práticos com os científicos. Posteriormente obteve o título de oficial de farmácia que o habilitou a ter sua própria farmácia, no caso a Farmácia Real, que ficava na Rua José Carlos de Carvalho.

                Desde muito moço tive o privilégio de gozar da amizade dos filhos de Tio Binha, os quais com o tempo se tornaram muito mais que amigos, mas sim meus irmãos. Fui recebido naquela casa como um da família, tanto pelo Tio Binha como por Sueli, fato este de que muito me orgulho. A partir de então passei a vivenciar naquela farmácia e nos contatos frequentes com Tio Binha maravilhosas experiências de vida.

                Lembro-me com extrema nitidez daquela farmácia, a entrada o grande banco, onde Tio Binha nos recebia a todos para horas de conversas proveitosas. Parece que o vejo ainda lá sentado, devorando seu jornal diário. Passada a entrada principal, guarnecida por enormes estantes abarrotadas de medicamentos adentrávamos a parte interna, de acesso aos mais íntimos como eu. Lá também uma grande estante de medicamentos, sem contar as velas, incensos e demais artigos de umbanda, que também fornecia aos amparenses. A pequena mesa, onde também se dedicava a leitura e a sala fechada para aplicação de injeções, onde tinha seu precioso cofre que do qual em algumas ocasiões tirava de dentro um belo revólver que nas idas ao sítio permitia a mim e a compadre Johnson realizar alguns disparos.

                Ao fundo sua sala de manipulação, lotada de grandes potes contendo diversos produtos químicos que manipulava com maestria, dosando a quantidade correta de cada um e  produzindo os medicamentos tão necessários aos clientes. Lembro aqui que Tio Binha era das antigas, farmacêutico completo que tinha o conhecimento exato das substâncias químicas necessárias para se produzir o medicamento. Não como hoje, onde compramos tudo pronto e embalado para o consumo. Sinto ainda o cheiro forte daqueles produtos, vejo a estante como sempre lotada de livros (dentre estes o raríssimo Chernoviz), as balanças de precisão sob a pia e aquele monte de potes vazios onde acondicionava a preciosa “Pomada Real” que fabricava e particularmente a mim, dava-me um alívio nas alergias da pele. Aquele lugar não me sai da lembrança.

                Tio Binha era uma personalidade ímpar na cidade, a época em que os médicos rareavam com seu conhecimento aliviou muitas dores, quer de ricos como de pobres, pois atendia a todos sem distinção. Quantos assim como eu não se furtavam de passar ao acaso pela Rua José Carlos de Carvalho e de pronto sentar ao banco da farmácia para ouvir aquela prosa gostosa. Passar ali já valia só pelo sorriso de Tio Binha, o qual não sai de minha memória. Tinha uma facilidade em sorrir, abrir sua boca larga deixando a mostra os brancos dentes e encantando a todos nós. Era um conselheiro para tudo, saúde, política, negócios, vida pessoal. Com sua perspicácia sempre tinha um conselho certo para a hora certa, e quanto me valeram seus conselhos na vida.

                Saindo da farmácia não posso deixar de recordar as horas passadas em seu sítio, o “Icaraí”, onde com tanto gosto fez um local formidável de descanso para si e para sua família. Como eu gostava do mato, pescarias, caçadas. Parece-me que o vejo caminhando sem camisa, com um velho chinelo de dedos e trajando um calção azul, com uma longa tarrafa as costas. Eu e Johnson ainda pequenos erámos os companheiros na operação de caça as tilápias, que aos montes enchiam um balde preto e nos fazia a delícia do estômago naqueles deliciosos almoços feitos por Sueli aos domingos no sítio. São tantos episódios naquele sítio, as pescarias de traíra a noite, os almoços em especial aquele coelho ensopado, tanta coisa vivida que a saudade não me deixa esquecer.

                Infelizmente já faz mais de dez anos que Tio Binha nos deixou, uma maldita doença nos pulmões privou-nos do seu convívio. Mas a lembrança e a saudade não morrem. Seu exemplo ficou para todos nós e tenho certeza de que sua família e em especial seus dois filhos que tanto orgulho lhe deram ainda seguem seus passos, levando o legado deste nome inesquecível na história de Santo Antônio do Amparo.

               

4comentários
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários