Tapwear
Águas
TERRAKASA IMOBILIÁRIA
servia pra conversar

NO TEMPO EM QUE O TELEFONE TINHA FIO

Pior que tudo, hoje a todo o momento também perdemos um tempo precioso em ligações enormes, cheia de conversas infindáveis e rodeios desnecessários.

Crônicas Amparenses

Crônicas AmparensesColuna semanal com crônicas do advogado e escritor Rômulo Resende Reis. O autor é natural de Santo Antônio do Amparo, advogado e escritor, é professor do curso de Direito do UNILAVRAS, Mestre em Direito e membro da Academia Lavrense de Letras. Trás nas suas crônicas lembranças afetivas e um pouco da história de Santo Antônio do Amparo, assunto que tem pesquisado com afinco nos últimos tempos visando a publicação de um livro sobre o tema.

15/10/2019 14h24
Por: Renato Pereira Torres

Sinceramente uma das coisas mais incômodas desta modernidade é o tal do telefone celular. Um aparelho que deveria ser útil para as pessoas se comunicarem virou um mecanismo de servidão e subserviência. Não se presta mais a comunicação, muito mais que isto nos prende horas a fio em redes sociais e aplicativos inúteis que nos roubam um precioso tempo de vida. Tornamo-nos escravos deste treco horroroso. Pior que tudo, hoje a todo o momento também perdemos um tempo precioso em ligações enormes, cheia de conversas infindáveis e rodeios desnecessários. Sem contar a checagem constante dos aplicativos de mensagens, as correntes, piadinhas e a necessidade inútil de estarmos permanentemente conectados, dando “joinhas” a tudo que nos mandam para além daquelas carinhas horrorosas.

                Muitos vão me perguntar o porquê de tanto ódio ao singelo aparelhinho celular. Explico, para além de rabugento por natureza, sou do tempo em que o telefone servia para conversar, e nada mais. Conversas breves, objetivas e claras, com a constante preocupação com o custo. Por estes dias,  remexendo minha gaveta de guardados me deparo com uma antiga agenda de telefones do velho Lídio, meu avô. Para além da saudade do velho que me segue por anos a fio, tive minha curiosidade despertada pelos números (naquela época não existia agenda eletrônica, ou se decorava o número ou anotava) que me trouxeram a  lembrança vários locais e pessoas de nossa Santo Antônio do Amparo. Lá estavam os números do Clube dos Cinco, o inesquecível 863.14.11, do Bar do Madeira, da APEMAC, Cooperativa, Farmácia Baldoni, Coletoria, Posto Transporte Lage , o número da casa do Tio Aloísio e lá de casa, o inesquecível 863.11.83. Vovô tinha anotado na primeira página seus números de trabalho, no caso os da fazenda do Sr. Edmundo Coutinho em Patrocínio e dos parentes em Cruzília e Carrancas.

                Lembro-me muito bem de como era o telefone no passado. Um grande aparelho preto, preso a um fio enrolado sobre si. Ainda não existiam números, seja naqueles discos giratórios ou meramente digitais. Todas as ligações eram feitas via telefonista, você sacava o aparelho do gancho e do outro lado a gentil telefonista indagava o número para completar a ligação. Criança em tenra idade, sequer sabia o número de cor, naquelas ocasiões de pronto dizia que queria ligar na casa da Vó Terezinha. E não é que a telefonista completava a ligação e do outro lado já ouvia a voz de minha avó atendendo.  Também me lembro de dizer que queria falar no cartório ou na casa do Tio Geraldo e a ligação era sempre completada. Até parecia mágica. Salvo engano a “telefônica” e era assim chamado o posto onde se completavam as ligações, ficava onde hoje é o SIAT (Administração Fazendária Estadual) na esquina do Bar do Abel. Das telefonistas não me lembro de conhecê-las, mas já me disseram que Tia Iara Fonseca foi uma delas, não sei precisar.

                Depois vieram os telefones discados e os três primeiros números indicando Santo Antônio do Amparo, ou seja, o “863”. Tínhamos que “discar” o número no enorme disco giratório  instalado sobre o aparelho para completar a ligação. Lá de casa nosso 863.11.83, na casa de Vô Lídio o 863.11.52, no Clube dos Cinco 863.14.11, na casa do Tio Geraldo acho que era o 863.11.53, e por aí vai, confesso que a memória hoje me falha. Posteriormente o telefone mudou e o disco giratório deu lugar ao teclado com os números que eram diretamente digitados, depois os aparelhos sem fio e finalmente já em fins do século XX chega esta porcaria chamada celular.

                A partir deste ponto, muitos abandonam o velho telefone fixo, o celular passa a ser um item obrigatório de porte pessoal e para além de um instrumento de comunicação se transforma nesta coisa horrorosa que mantém as pessoas permanentemente conectadas em rede, na maioria das vezes propagando inutilidades que consomem nosso precioso tempo de vida. Somos hoje obrigados a passar a maior parte de nosso tempo respondendo mensagens, as comunicações não são mais diretas e muitas incompreensões e mensagens truncadas causam desavenças e inimizadas.

                Como podem notar não sou fã desta maquininha, mas é a realidade do mundo moderno, como todos também sou obrigado a usar. Mas sinto saudades, uma vontade enorme de pegar o velho aparelho preto que tinha na casa da Coronel Zinho Borges, tirar do gancho e dizer:  “quero falar no cartório por favor.” E de outro lado ouvir a voz de meu pai, simplesmente me dizendo um “alô” que tanta falta me faz.

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários