TERRAKASA IMOBILIÁRIA
Águas
Tapwear
Crônicas Amparenses

A RUA CORONEL ZINHO BORGES

Minha Rua

Crônicas Amparenses

Crônicas AmparensesColuna semanal com crônicas do advogado e escritor Rômulo Resende Reis. O autor é natural de Santo Antônio do Amparo, advogado e escritor, é professor do curso de Direito do UNILAVRAS, Mestre em Direito e membro da Academia Lavrense de Letras. Traz nas suas crônicas lembranças afetivas e um pouco da história de Santo Antônio do Amparo, assunto que tem pesquisado com afinco nos últimos tempos visando a publicação de um livro sobre o tema.

13/01/2020 16h55
Por: Redação

 

Já morando a alguns anos fora, sem me desligar por completo de minha pátria amparense, nunca consegui me afastar por completo da sensação do exílio, no sentido camusiano do termo. Em qualquer lugar do mundo que já tenha pisado não se passou um dia sequer sem que eu fitasse o horizonte e tentasse descobrir para que lado ficaria  Santo Antônio do Amparo. Sinto que toda pessoa tem um lugar de pertencimento no mundo, do qual, por mais distante que esteja nunca conseguirá se afastar. Santo Antônio do Amparo é meu centro do universo (como muitos alunos já me ouviram dizer). Mas retomo estas crônicas para falar de um lugar todo especial.  Criei-me no espaço tempo compreendido entre as Ruas Coronel Zinho Borges e Felicidade. Deste espaço guardo as mais significativas lembranças de uma infância e mocidade feliz, cercado da família e amigos acumulando aqueles primeiros valores que me acompanham até os dias de hoje.

                Para quem não conhece a Rua Coronel Zinho Borges é a que começa na Pça. Governador Valadares, mais precisamente onde se encontra o Banco Itaú, segue daí em franca descida até encontrar a não menos famosa Rua da Felicidade. Nesta rua, lá por meados da década de 70 do século XX, pai adquire um lote de sua tia avó Mariana Resende e neste lote edifica o primeiro barracão que me serviu de morada.

                A história da rua me foi passada pela boa prosa e memória do querido Tio Paulinho Borges. Segundo me contou a área em questão fazia parte do antigo chalé que existia onde hoje está o Banco Itaú, de propriedade de seu pai Juvenal Martins Borges (e então ocupado pelo Sr. Leobaldo). Juvenal Martins Borges existiram muitos e ilustres na história de Santo Antônio do Amparo, até hoje o nome acompanha seus descendentes, no caso meu compadre Nal.  Zinho Borges era como todos chamavam o Tio Juvenal Martins Borges (salvo engano o segundo com este nome), sendo este casado com minha tia bisavó Mariana Resende Borges (Irmã de minha bisavó Maria Luzia). Segundo relato do Tio Paulinho na década de 70, sob a administração do então prefeito Jorge Carvalho, a esposa deste sugeriu a Tia Mariana que abrisse a rua, ligando o centro da cidade a Rua da Felicidade, o que proporcionou o desmembramento de vários lotes, dentre os quais aquele vendido por Tia Mariana ao meu pai.    

                Ali meus pais construíram sua vida, tudo a partir do pequeno barracão. Uma das lembranças mais remotas que tenho deste  foi de, ainda muito novo, acompanhar os trabalhos de pedreiros levantando os muros de divisa com a casa de cima de propriedade do saudoso tio Geraldo Reis. Segundo relatava meu pai fomos uns dos primeiros moradores da nova rua que então se abria.

                Quantas e inúmeras confusões o nome da Rua ainda causa. Por instantes intermináveis já peguei-me ao telefone tentando fazer algum cadastro e explicar o nome correto da rua. Sempre vinha a indagação: “Coronelzinho?” “É assim mesmo que se escreve?”. E ficávamos nós a explicar que o nome não era de um coronel pequeno, e sim “Zinho”, apelido pelo qual ficou conhecido o Coronel Juvenal Martins Borges.

                Passados já mais de quarenta anos na Rua Coronel Zinho Borges até hoje sou tomado de uma alegria profunda ao dar seta a direita passando pela Matriz e descer a velha Rua até a casa de mãe. Lembro-me de cada um dos detalhes, de todas as casas que nela foram construídas. Meu pai dizia que os pioneiros foram ele, Tio Geraldo Reis, Toninho Dutra, Tio Téo Correa e mais acima a casa de um funcionário do IBC, depois vendida ao Cícero Carrara. Depois vieram as construções mais de cima, a esquerda de quem desce a casa do Sr. Luiz, da cidade de  Oliveira, hoje do amigo Biba, de frente Doronil, Eduardo Caliani e até mais acima a casa construída por Tio Paulinho Borges. De frente também a casa do amigo Marcelo Carrara, hoje escola, mais abaixo construída bem depois a casa do Sr. Jaime Andrade, sem esquecer uma das mais recentes no caso aquela feita pelo Salomão Campideli onde hoje é o escritório do amigo Pablo.

                No início a rua começava na antiga Minas Caixa, tendo de outro lado o casarão de Dona Ilma, a qual depois fez uma casa menor já na nossa rua, sendo que no lote abaixo onde se estocavam os fogos para os festejos de Santo Antônio fez-se a casa do Sr. Juvenal Borges. Lembro-me de cada uma destas casas e as vezes a noite, em  sonhos me imagino descendo a Zinho Borges e vendo a paisagem que ficou gravada em minha memória afetiva.

                Em meu eterno exílio no mundo, onde quer que esteja sempre olharei o horizonte tentando descobrir para onde fica Santo Antônio do Amparo, seja nos Andes, em qualquer praia, na Piazza San Marco ou de minha janela em Lavras, tentarei achar o rumo e descendo a Pça. Governador Valadares, dar seta a direita e descer a Coronel Zinho Borges, chegando assim em casa, quem sabe ouvindo alguém declamar Casimiro de Abreu: “Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, Da minha infância querida , Que os anos não trazem mais!”

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários