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Cultura CRÔNICA AMPARENSE

Pensamentos em tempo de pandemia

UMA CRÔNICA DA “PESTE”

17/06/2020 12h57
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Por: Redação
Pensamentos em tempo de pandemia

Ao me deparar com a Pça. Governador Valadares toda cercada, medidas de contenção social e rostos conhecidos e amigos desfilando pelas ruas amparenses cobertos por horrendas máscaras sou tomado por uma angústia indescritível. Aqui, neste meu canto do universo com em todo o planeta vivemos os efeitos nefastos da Pandemia de Covid-19. O mal minúsculo, encerrado em um vírus invisível põe de joelhos todo o planeta, tornando inúteis esforços de todas as ditas grandes potências, dos governos e derrete o sistema econômico mundial, acabando com velhos dogmas econômicos e com as certezas até então inabaláveis do deus mercado.

                Mas aqui, de meu chão amparense, restrinjo meu pensamento, voltando-me mais uma vez a Albert Camus e seu livro “A Peste” para, a partir de mais uma dentre incontáveis releituras, tentar compreender estes dias sombrios que estamos todos condenados a viver. Nesta sua obra, escrita em meio aos horrores da Segunda Guerra Mundial, Camus narra acontecimentos fictícios na cidade de Oran, em sua Argélia natal. Cidade esta que na obra é assolada por uma epidemia de “peste”, que passa a matar milhares de pessoas. Paramos aqui, não vou contar o enredo da obra.

                O que interessa é o fato de Camus analisar nesta obra ficcional a reação das pessoas a peste e os efeitos que esta provoca no relacionamento humano, sejam as autoridades, os ricos, os pobres, o povo em geral. E neste ponto a obra de Camus passa a fazer sentido em razão do momento que estamos vivendo, permitindo-nos alguma reflexão.

                Nos momentos iniciais da pandemia, tal como os habitantes de Oran, somos tentados a ignorar os ratos mortos e os primeiros indícios de um mal maior, ou seja, a primeira atitude é de negação, certamente provocada pelo medo do desconhecido. E a partir daí relativizamos o problema e elegemos outras prioridades em detrimento do real conhecimento do risco.

                Mas o vírus ignora a vontade e o sentimento humano e, no instante em que começa a matar cada vez mais pessoas nos joga na cara a realidade inexorável, a peste existe, a epidemia é real, e por mais que tentamos negá-la ela nos espreita silenciosa em cada um de nossos passos.

                A partir desta constatação a vida entra em uma situação de completa suspensão. Quarentena, isolamento social, bloqueios em estradas que nos afastam daquelas atividades mais banais. Sentar-se em um relés boteco, tomar um copo de cerveja e jogar conversa fora com os amigos passa a ser uma atitude ignóbil, até mesmo criminosa. E pior, a dúvida e a incerteza de quando este simples ato poderá ser realizado novamente.

                Para além a vida cotidiana, o mal da peste assume uma face de terror. Presos em casa, privados do trabalho e do sustento, a incerteza e a sombra da fome passa a ocupar nossa mente, trazendo a insegurança e a angústia, prenunciando depressões futuras.

                Mas como Camus também sou otimista e tenho ainda uma boa dose de fé na humanidade. Tal como a peste que assolou Oran na ficção de Camus, o covid-19 também vai passar, o que nos alimenta com sentimentos otimistas, e nos faz ansiosos para o dia em que a Pça. Governador Valadares estará livre de sua prisão de ferro e repleta de crianças brincando e namorados em seus bancos, a jurarem o impossível.

                Ainda assim não poderemos nunca esquecer as lições que estamos a cada dia tirando disto tudo. A única certeza que eu particularmente tenho é de que a vida nunca mais será  com antes. Sim, nunca mais voltaremos ao normal, porque aquele “normal” não existe mais e neste ponto talvez possamos conseguir alcançar algo melhor, quem sabe o entendimento de que necessariamente temos que encontrar uma nova forma de conviver uns com os outros e uma nova forma de habitar este planeta tão maltratado pela humanidade.

                Eu, tal como o personagem do Dr. Rieux, no livro de Camus, quero apreender com a peste e no meio do flagelo entender “que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.”

Crônicas Amparenses
Sobre Crônicas Amparenses
Coluna semanal com crônicas do advogado e escritor Rômulo Resende Reis. O autor é natural de Santo Antônio do Amparo, advogado e escritor, é professor do curso de Direito do UNILAVRAS, Mestre em Direito e membro da Academia Lavrense de Letras. Traz nas suas crônicas lembranças afetivas e um pouco da história de Santo Antônio do Amparo, assunto que tem pesquisado com afinco nos últimos tempos visando a publicação de um livro sobre o tema.
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